ONG atua há 15 anos no Dique da Vila Gilda, em Santos (SP), onde está a maior favela sobre palafitas do Brasil. 

28 de novembro de 2002. Nessa data foi lançada a pedra fundamental do Instituto Arte no Dique. Passados mais de 15 anos, mais de 5 mil pessoas, em grande parte moradores do Dique da Vila Gilda, em Santos, frequentaram as oficinas da instituição, tiveram acesso à cultura e à arte. “Cultura como um todo”, como costuma dizer o presidente da ONG, José Virgílio Leal de Figueiredo, já que o Arte no Dique trabalha, com seus colaboradores, alunos, frequentadores, parceiros, a questão da cidadania. Desde a entrega semanal de leite para a comunidade, até as oficinas de percussão (que deu início ao projeto), violão, dança, informática, customização, as exibições de filmes seguidas de debates, shows. Artistas de renome internacional como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Sergio Mamberti, Lecy Brandão, Wilson Simoninha, Hamilton de Holanda, Armandinho Macedo, Luiz Caldas, entre outros, já se apresentaram no espaço.

O Dique da Vila Gilda na Zona Noroeste de Santos é a região com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Baixada Santista, onde está a maior favela sobre palafitas do Brasil, com cerca de 22 mil habitantes vivendo em condições precárias, em palafitas à beira do mangue, sobre o Rio Bugre.

Diariamente, cerca de 600 pessoas participam do projeto, que tem a missão de oferecer oportunidade de transformação e desenvolvimento humano e social a crianças, adolescentes, jovens e adultos através da participação da comunidade em ações educativas, de geração de renda, meio ambiente e valorização da cultura popular da região.​ O trabalho sério, que gerou importantes resultados inclusivos, levou a instituição a tornar-se referência em inclusão social, chegando, inclusive, ao Vaticano. Em 27, 28 e 29 de junho, o presidente do instituto, José Virgílio Leal de Figueiredo, terá encontros com membros do Conclave e ministrará uma palestra sobre o Combate à Fome.

Atualmente, a instituição oferece oficinas de percussão, dança, capoeira, teatro, customização,  costura, taekwondo e inclusão digital, além de dezenas de atividades ao longo do ano, como apresentações musicais, espetáculos teatrais, sessões de filmes, workshops, etc.

Para outubro, prevê o lançamento do primeiro Restaurante Popular do Dique da Vila Gilda, o Restaurante das Palafitas. A primeira etapa de construção foi custeada mediante o valor arrecadado pelo Baile da Cidade em 2017, que teve show de Lulu Santos. A segunda etapa, que prevê a entrega do equipamento completo, tem financiamento da empresa Ecovias, conforme acordo intermediado pelo poder municipal.

O restaurante oferecerá refeições nos moldes do projeto Bom Prato, a R$ 1, mas também entregará marmitas gratuitamente dentro das palafitas. “Há cadeirantes, pessoas que enfrentam problemas graves de saúde, que não têm nem um real por dia. É nossa missão possibilitar a todas elas a oportunidade de ter o que comer, a essência de tudo o que buscamos para a construção de um mundo mais justo, inclusivo”, afirma José Virgílio. “Sermos escolhidos como porta-vozes do combate à fome, pelo Vaticano, só nos mostra o caminho certo que decidimos percorrer”, ressalta o produtor cultural.

Intercâmbios culturais geraram oportunidades

O reconhecimento internacional começou há alguns anos, com os intercâmbios culturais nos quais a Banda Querô, primeiro produto cultural do instituto, participou, em cidades como Paris e Barcelona. Depois, o lançamento da filial em La Ciotat, na França. O presidente do instituto também chegou a palestrar no México e no Congresso Ibero-Americano, em Madrid, 2012. E jovens da comunidade tiveram a chance de ir ao exterior e estar em contato com grandes artistas. Gabriel Prado, percussionista da Banda Querô, foi morar na Itália, onde atua como músico profissional. Outro jovem da banda, Jorge Henrique da Silva, 20 anos, recebeu uma bolsa de estudos pela Aliança Francesa, de Santos, e partiu semana passada para a França.

“Eu toco percussão desde pequeno, com 8 anos eu já tocava com meu pai em casa, aos 10 anos eu comecei a tocar no Arte no Dique. Com o projeto, fui 2 vezes a Salvador na Bahia (para o carnaval) e fui 3 vezes a França (Paris, Limours, Montreaux, La Ciotat). Através do projeto terminei um curso de francês de 1 ano e 6 meses. Dentro desses 10 anos no Arte no Dique pude estar na presença de  artistas como Gilberto Gil, Peu Meurray, Moraes Moreira, Armandinho Macedo, Hamilton de Holanda entre outros. Vou à França em busca de sonhos, para trabalhar com música, buscar a troca de culturas, mostrar um pouco do Brasil, estudar em um conservatório de jazz”, destaca Jorge Henrique.

Sobre o Arte no Dique

Tudo começou em novembro de 2002, quando o projeto foi lançado em parceria com o Instituto Elos Brasil, Grupo Cultural Olodum da Bahia e grupo de moradores do Dique.

Com a participação efetiva da comunidade e a contribuição dos diferentes setores da sociedade  o que poderia parecer impossível aconteceu.

Em 2001, havia o desejo de lideranças locais no sentido de que o então  Projeto Arte no Dique expandisse sua atuação desenvolvendo atividades para crianças e jovens. Naquela época, não existia, na região, nenhum tipo de iniciativa para esse público.

Porém, somente em 2002, quando o Grupo Régua e Compasso de Santo André, organizado pela Escola Criativa Olodum, se apresentou no Dique, que a ideia tomou força e começou a ser desenvolvida. Os jovens da comunidade encantaram-se com a possibilidade.

Em novembro daquele ano iniciou-se o Projeto Arte no Dique. Com um ano e meio de existência o Projeto Arte no Dique, em setembro de 2004, transformou-se na organização social “Instituto Arte no Dique” com autonomia para a realização de suas ações e, atualmente, tem buscado ampliar suas parcerias para consolidar seu trabalho e na Escola Popular de Arte Cultura Plínio Marcos.

Em maio de 2009, recebeu a visita do então Ministro da Cultura Juca Ferreira para celebrar o Convênio entre a Prefeitura de Santos e o MINC, a fim da transferência de recursos para a construção do Edifício Armazém Cultural do conjunto Arquitetônico da Escola Popular de Arte e Cultura Plínio Marcos. Em novembro de 2010, recebeu outra visita de Juca para a liberação do recurso e abertura da licitação para a construção do novo equipamento.

O sonho foi concretizado em julho de 2012, com a entrega do edifício Armazém Cultural Plínio Marcos, onde as oficinas culturais são realizadas atualmente.

O que no início acontecia em um contêiner, transformou-se numa arrojada instalação que tem salas para aulas de dança, violão, percussão, projeção, palestras, exposições de artes visuais, informática, escritório, etc.

O Arte no Dique foi retratado em diversos filmes, entre curtas e um longa-metragem lançado em Santos, São Paulo, Salvador e La Ciotat, cidade francesa onde fica a filial internacional da instituição.

Maiores informações:

www.artenodique.org
www.facebook.com/artenodique